domingo, 6 de março de 2011

Existência de Éter

O mundo havia mudado para Gaspar.
Sentado na torre da catedral da Sagrada Criação, ele podia sentir o sol que descia por sobre o horizonte bater em seu rosto e o zéfiro vindo do norte afagar-lhe os cabelos. Mas tudo isso de uma forma bem peculiar.
Ainda tentava compreender as mudanças pela qual estava passando, desde que o ocorrido acontecera. Aquilo o assustava, porém como toda criança, não havia preocupação demasiada em seu coração. Apenas a falta de alguém que lhe ajudasse a entender a vida e compreender seus caminhos.
Não entendia porque sua família não ligava mais para ele, nem o porquê de seus amigos fingirem que não o conheciam. Tão logo cansou de sua busca e resolveu subir naquela torre e ali apenas existir.
De todas as coisas estranhas daquele dia, a que mais o incomodava era um novo e vasto sentido do todo. Ele simplesmente podia sentir tudo que existia. Tanto o concreto, quanto o abstrato. Sentia a borboleta voar ao seu lado, e sentia o ar e todo tipo de energia que nele seguia. Ele sentia o Éter. E também sentiu quando de repente uma mulher de vermelho segurou sua mão, após ter caído do telhado de sua casa perto dos portos de Andreane, a principal cidade de Arzallun. A causa? Uma enorme bala de canhão que destruiu todo seu frontispício. E a partir daquele momento um mundo novo se abriu para ele.
A mulher de vermelho nada falava. Apenas chorava, e ainda por um único olho. Conduziu-o até certo tempo pela estrada que levava para o centro da cidade e ali ela simplesmente desapareceu.
Após o ocorrido, ele perambulava pela cidade observando toda a agitação das pessoas, sem entender o que estava acontecendo. Três dias depois quando o ocaso cintilava as cores mais belas no céu, a mulher de vermelho novamente o encontrou e estendeu-lhe a mão. Levou-o até a catedral e em seu interior Gaspar contemplou muitos corpos estendidos por todo o átrio. Quase levou um choque quando percebeu que seu corpo também estava ali, jogado ao chão. Imóvel. Sem respirar. O garoto correu até ele tentando entender como aquilo era possível e foi apenas quando viu sua família chorando junto à grei de plebeus ali presente que pode perceber e entender por inteiro o que realmente aconteceu.
Ele havia morrido!

Depois desse dia, cada vez mais e mais, a solidão e a falta de alguém se apossavam de Gaspar. Porque uma criança ainda não tem completa consciência do que é a morte, e para Gaspar ela chegara prematura e efêmera.
Semanas se passaram e transformaram em meses. Meses de um eterno retiro de solidão onde ele pôde se encontrar, e através de outras entidades, soube que, se ele ainda não havia feito a passagem para o reino de Mantaquim, era porque ainda tinha um papel a cumprir neste plano. Um papel traçado pelo próprio Criador.
Ele então passou sua existência, a observar as coisas ao seu redor e tentar identificar sinais do que o Criador queria dele. Gaspar viu um Rei morrer. E outro se erguer. Observou de longe uma menina ser iniciada em um coven. E demônios serem invocados por um conde magrelo e asqueroso. Um dia, porém, ele observou uma movimentação diferente do normal na cidade e seguiu a multidão que parecia ansiosa por alguma coisa.
Nunca tinha visto tantas pessoas em um só lugar como aquela arena parecia suportar. Para ele era irrelevante, agora que conseguia passar pelo concreto, já que se tornara “abstrato”. Sentou-se em uma das arestas de um ringue e contemplou uma Arzallun fervorosa. A multidão gritava extasiada, ansiando um espetáculo que decidiria a nação mais forte de todo continente do Ocaso.
E foi quando ele viu o lutador entrar por uma rampa lateral que tudo mudou para ele.
Gaspar era uma criança sim, mas como todo e qualquer cidadão de Andreane e até mesmo de toda Arzallun, ele aprendera a idolatrar irracionalmente o príncipe mais querido pelos plebeus: Axel Brandford.
Naquele instante a multidão foi ao delírio total, deixando o êxtase transcender os limites conhecidos e abalar os arcabouços daquele lugar. Gaspar esquecendo momentaneamente de seu “estado-fantasma”, correu em direção ao príncipe tentando chamar-lhe a atenção.
O príncipe começou a lutar e Gaspar segurou seu short, um short com as cores de Arzallun, querendo que ele o visse. Queria que ao menos ele o enxergasse. E Gaspar desejou tanto isso, canalizou tanto sua vontade, não percebendo que, ao deixar o verbo dar lugar ao ato, estava tirando energia etérea do príncipe. Estava deixando-o fraco. E então...
BAM... BAM... BAM!!!
O príncipe caiu no chão depois de uma sequência jabs seguido de um uppercut.
Gaspar ainda não se dera conta de que o príncipe não podia vê-lo e insistia em chamar sua atenção. Foi apenas depois que Axel levou uma segunda sequência que quase o fizera perder o torneio, que Gaspar o soltou. Não porque desistiu do príncipe e sim por tentar identificar de onde vinha uma voz em sua mente.
Oi garotinho.
Mesmo em meio aquela gritaria toda, ele a ouvia nitidamente.
Você quer brincar?
Era a primeira vez que ele ouvia uma voz humana direcionada para ele depois de tudo o que aconteceu em sua... existência.
Vem! Estou aqui.
Ele procurou, procurou, até que encontrou uma menina logo à frente chamando-o, então ele caminhou até ela.
A garota estava extasiada, e Gaspar mais ainda. Embora ela demonstrasse e ele não.
Quando ele se aproximou, percebeu que a garota estava acompanhada de duas mulheres, que não pareciam enxergá-lo.
-Como é seu nome? - Perguntou a menina.
Gaspar ia responder, ele queria responder. Já estava mergulhado em um mundo de solidão há muito tempo. E a sua frente se apresentava pela primeira vez uma solução para seu torpor. Mas, nada saia de sua voz.
Por mais que tentasse, e ele realmente tentou, parecia que suas cordas vocais havia se atrofiado. Se é que fantasmas possuíam cordas vocais.
-Você quer brincar comigo? - A garota perguntou novamente, percebendo o impasse.
Gaspar lhe estendeu a mão e os dois saíram do meio daquela multidão de Arzallinos eufóricos e em êxtase, rumando para a entrada de um bosque há algumas centenas de metros da arena.
Pararam aos pés de um grande pinheiro, Gaspar pegou alguns gravetos e começou a desenhar no chão. Ele estava feliz. E estava assim por saber que aquela garota era parte do sinal de sua missão traçada pelo Criador. Ele não sabia explicar aquilo, apenas acreditava. Isso era fé. E quando ela vem de uma criança, está na forma mais pura e sincera que possa existir. Não importando se a criança é humana ou um fantasma.
-Você gostou dessa árvore né mudinho? - Gaspar balançou a cabeça sorrindo e a menina nem percebeu o verdadeiro motivo daquele sorriso.
-Tá. Você pode morar nela por enquanto. Ela pode ser sua...
Gaspar balançou a cabeça negativamente. Ele podia sentir que aquela árvore era uma árvore marcada. Uma marca de um amor. Ele apontou para a menina, sabia que ela fazia parte daquilo. Ele apontou para a árvore e para ela
-Não entendi, pô!
Gaspar se levantou para mostrar a marca para a menina.
-Ih, ó: Não fica nervosinho não tá? Eu hein! Já tenho de ficar falando sozinha aqui, bancando a maluca! E ainda vou levar esporro de alguém que, além de não falar, nem tá aqui? Fala sério né?
Ele segurou-a pelo braço, percebendo-a enriçar por seu toque gélido. Contornaram a árvore e ali ela estava. Circundados por um envoltório de coração, dois nomes: Ariane e João.
E Ariane chorou.
Gaspar não sabia se eram lágrimas de felicidade ou de tristezas, mas o sentimento que conseguia compartilhar fluindo de Ariane era uma mistura de amor, complacência, escusa, entre outros, que talvez ele nem conhecera seus nomes e seus efeitos no corpo. Mas, entendia de alguma forma, o coração da menina.
Ariane partiu e a noite desceu por sobre o horizonte enorme de Andreane.
E ali Gaspar habitou.
Em um pinheiro que simbolizava o amor em algumas culturas, a longevidade em outras. Mas para Gaspar, iria significar uma segunda chance.
Tudo estava ligado. Simplesmente ao bel prazer e vontade do Criador. E aquela noite seria uma noite especial para Gaspar, porque aquela noite era uma noite de lua vermelha.
Uma noite sem ventos... Uma noite de éter.

Exatamente à meia noite Gaspar estava sentado na ponta do ultimo galho do dossel daquela árvore, quando viu aparecer em sua frente algumas entidades.
Uma era a fada Liaras. A mais bela de todas as fadas.
O segundo era um gnomo. Simbolizando a terra.
O terceiro e o quarto eram representantes do próprio Criador. Eram semideuses.
E foi neste instante que ele nos viu.
-Olá Gaspar! - Disse a fada num onírico inexistente no mundo natural. –Sua provação neste plano se sucedeu. Chegou a hora de seu verdadeiro destino.
Ele voltou a contemplar todos ao seu redor. Olhou para mim, e, olhou para você.
E o contemplamos. E eu tenho certeza que vi seus cabelos se enriçando. Como se o éter lhe roçasse o torso. E você também viu?
-Seu destino está ligado a esse mundo, e Banshee não tem mais poder sobre você. - Disse Liaras se aproximando de você, olhando em seus olhos e voltando a atenção o menino.
-Eu não estou preparado para entrar em Mantaquim? Disse Gaspar.
-Pelo contrário meu querido. –Liaras disse sorrindo. –É este mundo que não está preparado para existir sem você e tudo o que você representará a ele. Você voltará a viver no mundo físico até cumprir o ultimo plano do Criador traçado a você.
-Eu nascerei de novo?
-Sim, mas sua existência será um pouco diferente das pessoas normais.
-E no que eu serei diferente?
Liaras o olhou feliz e disse:
-Digamos que você será especial. E as pessoas o chamarão de Pinóquio!
Ela se elevou mais alto e disse:
-Até nosso próximo encontro.
Dizendo isso todos se retiraram e na árvore foi cravado um nome: Gepeto!

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